sexta-feira, dezembro 16, 2011

Uma lição


                                                                  Ivete na estrada 03/2008

Ouviu quando a chamaram e embrenhou-se mais na escuridão da mata. Tinha medo. Era preciso fugir e fugir, sem confiar em nada, em ninguém! Os cabelos estavam desgrenhados, a roupa suja e rasgada. Nos pés, nas mãos e no rosto, os cortes e arranhões que iam sendo feitos pelos galhos pontiagudos ou as ervas cortantes. Ela já nem sabia quem era. Os olhos esbugalhados olhavam para tudo, mas já nada viam. Deixava-se conduzir sem saber para onde. Foi quando uma longa mão agarrou-a. Seus dedos magros pareciam não ter carne alguma. O medo a fez desfalecer. Haviam sido horas e horas de lutas, de medo, de fome, sede e corridas no meio das árvores.

Depois de horas desacordada (ou teriam sido dias?) abriu os olhos e deparou-se com a estranha figura que a tocava. O medo estampou-se novamente em seu rosto e tentou sentar-se, mas a fraqueza do corpo não deixou que se movesse. A criatura sorriu do seu medo, na semi-obscuridade de uma cabana mal arranjada no meio do nada. Seus pensamentos estavam desencontrados pelo pavor que sentia. Agora estava completamente perdida! Mas afinal, do que estivera fugindo? Já não conseguia lembrar-se de nada. Já nada importava. Tudo parecia perdido agora. Abandonou-se a um sono sem sonhos, por tempo indefinido. Acordou com alguém lhe lavando os ferimentos... Abriu os olhos aos poucos e a cena que viu era indescritível. Já não estava na velha cabana, mas num lugar lindo! Havia um suave perfume envolvendo tudo e aquele ser que limpava seus ferimentos sorriu docemente, perguntando se tinha fome. Meu Deus! O que será que tinha acontecido? Morrera e estava no céu? Ouviu sua voz muito distante, perguntando. Então o anjo que cuidava dela lhe disse com a mesma doçura: _ Ao contrário. Estás bem viva, mas foste arrancada do inferno! (Ivete 03.08.2009)

Dois longos anos se passaram, mas ela ainda podia ouvir a voz do doutor João Pedro dizendo-lhe aquela frase com toda doçura. Sentada agora neste lugar lindo, olhou para suas mãos que ainda traziam as cicatrizes daquele acontecimento. De fato, ela fora arrancada ao inferno. Podia lembrar-se de todos os fatos que haviam antecedido aquele momento. A grande dor da perda que sofrera, a desesperança, o afundar-se até o ponto de já não ver sentido para a vida. E o dia fatal, quando saíra no seu carro e no desespero não se dera conta do quanto acelerava, do quanto punha em risco a sua vida e a de outras pessoas que transitavam naquela mesma rodovia. Chorava muito e não era capaz de enxergar. Os últimos tempos haviam sido um suceder de desvalorização de si, um deixar-se morrer dia a dia... Agora era só aceitar que o ato final acontecesse. Via o velocímetro a subir, subir... Mas o que era aquilo? Para que servia? Nada mais importava. Finalmente o carro chocou-se contra alguma coisa e capotou,capotou,capotou... Então se deu conta de que já não estava ali. Fugia, embrenhada naquela mata horrível...

Ela fora resgatada! O carro, contaram-lhe, teve de ser serrado para retirá-la de lá. Ninguém sabia dizer como fora capaz de resistir a todos os ferimentos. Foram muitos dias desacordada! Foram muitos dias de resgate da sua alma... Agora sabia que já era capaz de valorizar sua vida! A despeito de tudo! E quando fosse para a morte de novo, queria estar mais bem preparada! (Ivete 07.08.2011)

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