domingo, outubro 28, 2007

O "DIA DOS MORTOS".

Sempre me senti bem em ambientes de cemitério! Se me sentia triste, angustiada, refugiava-me em algum cemitério, para usufruir da paz que ali habita. Ao entrar, ia olhando cada foto, cada nome, cada pensamento sobre as lápides frias e refletindo sobre a vida daquelas pessoas. Eram amigos, parentes, conhecidos ou totalmente estranhos. Não importa. Eram vidas que haviam começado e terminado aqui na terra! Que histórias cada um teria para contar? Eu andava por entre os túmulos imaginando suas dores, suas alegrias... Rezava e chorava! E saia dali com ânimo renovado.
No entanto, jamais fui de “cultivar” cemitérios. Quando morria algum parente ou amigo, sempre tive necessidade de ir ao velório e ao enterro, dar apoio aos familiares, aos que estavam sentindo a dor da perda, ou simplesmente despedir-me de quem ali estava, mas depois disso, eu não tinha o hábito de lavar os túmulos, levar flores, visitar no Dia de Finados... As visitas, eu as fazia assim, em qualquer momento que sentisse necessidade daquela paz. As flores, sempre preferi oferecer em vida, em formas e gestos que pudessem assim ser aproveitados. As flores depois da morte nunca me pareceram fazer muito sentido, mas respeitava quem assim queria fazer sua homenagem... Por minha vez, eu sentia “meus mortos” muito mais “presentes” ao fazer-lhes uma oração, quer fosse na igreja ou em casa, do que ali no cemitério, onde para mim, era simplesmente o “lugar dos restos”, onde eles já não mais se encontravam...
Apesar de tudo isso, no ano passado ano, já alguns dias antes de Finados, comecei a sentir certa vontade de visitar os túmulos de parentes falecidos, naquele dia especialmente dedicado aos mortos. Convidei meu marido, que se mostrou receptivo e interessado. Meu pai morrera há quase dez anos e após seu enterro eu só visitara seu túmulo uma única vez, no enterro de uma tia. O cemitério onde ele foi enterrado é na distante localidade onde eu vivi minha infância. Agora, já se haviam passado nove anos sem que o visitasse novamente! Programamos-nos, como uma centena de milhares de pessoas pelo planeta o fez e no dia anterior ao “Dia de Finados”, viajamos até Rio do Sul. Ali dormimos, para no dia seguinte iniciar cedo nossa pretensa jornada.
O dia amanheceu com um solzinho tímido que insistia em permanecer, apesar das grandes nuvens que tentavam encobri-lo. Logo, o vencedor da batalha brilhou alegre, aquecendo corpos, corações e mentes.
Levantamos pelas oito horas da manhã e depois de um belo café da manhã, nos pusemos á caminho da velha terrinha, acompanhados pela minha irmã. Ao chegarmos, nos dirigimos á uma floricultura, fazendo as contas de quantos vasos iríamos comprar: _Pra mana, pro pai, pro dindinho, pro sogro...
E Ivone interrompeu seriamente:
_Pra tua sogra... _Como? Ai meu Deus, ela ainda não morreu... Não sei o que me deu...
Rimos muito da confusão dela, brincando que iríamos entregá-la pra minha sogra.
Depois de compradas as flores, seguimos para o cemitério, onde já estavam também minha mãe, outra irmã, sobrinhos... O estacionamento ao redor do cemitério estava completamente lotado. Depois de muitas voltas e outras tantas manobras, com a bursite do marido reclamando pela dor do esforço com o volante duro do alugado, conseguimos estacionar. O cemitério estava abarrotado de gente viva. Estava terminando a missa ali celebrada. Resolvemos contorná-lo e entrar pelo portão principal, para não ter que passar pelo meio de todo aquele povo.
_Começamos então pelo túmulo do sogro, sugeri. Ao que os outros concordaram.
Começamos a caminhar e numa das frestas entre as pedras do calçamento, tranquei o salto do sapato. Tentei em vão retirá-lo, mas a pedra brigava comigo, disputando a posse da linda peça rosada. O marido já ia longe, sem dar importância a mim ou á pedra. Ivone assistia a tudo em meio á risos, ainda decidindo se torcia por mim ou pela pedra. A disputa foi feia! Vendo que teria de seguir descalça, larguei os vasos de flores no chão, agachei-me e puxei fortemente com as duas mãos. A pedra retorceu-se, revirou-se e finalmente cedeu, devolvendo-me o que me pertencia. Saí xingando e criticando-a pela sua teimosia. Apressamos o passo para alcançar o marido, que já ia bem longe.
Encontramos velhos conhecidos que nos cumprimentaram com cara de “porta-me-lá”, como diziam os antigos.
Finalmente adentramos ao cemitério. O marido, sempre á nossa frente, como um cavaleiro intrépido que abrisse caminho...
Deixamos as flores no primeiro túmulo, fizemos uma curta prece e seguimos cemitério adentro. Parentes, amigos e conhecidos nos cumprimentavam, abraçavam e puxavam conversa... Era muita gente! Cada conhecido demonstrando alegria no reencontro depois de tantos anos... Onadir, Lote, Ana, André... Terê, Meri, Zé, Dona...
_Meri, onde ta tua boniteza? _Ai, ai. Acho que fiquei feia... E a manhã se foi, entre abraços, risos, choros, encontros e desencontros...
Almoço. Soneca. Nova etapa á tarde!Viagem até o lugarejo da minha infância, revendo velhos lugares, que apesar de ser os mesmos, já não mostram antigas marcas, já não tem as mesmas casas, as mesmas árvores, os velhos buracos...
O olhar quase não reconheceu a paisagem. Chegamos ao cemitério do lugar e depois da emoção diante das antigas fotos nos túmulos, o coração apertado, algumas lágrimas que rolaram, as lembranças que passearam na mente, algumas conversas e constatações, nos retiramos dali para a visita aos vivos.
Tio Arnoldo e Anildo... Dor ao ver o abandono dos dois... A casa onde antes viviam tantas pessoas, uma família inteira com seus risos, alegrias, dores e labutas... Agora, a grande mesa que reunia tantas pessoas para o café da manhã, os almoços e jantas, tornou-se imensa para reunir somente dois pobres homens solitários. Pai e filho... Doentes do corpo e da mente... Olhar para aquele pobre tio, roído, talvez pelos remorsos, pela dor e solidão... Foi tão alegre noutros tempos... Tão querido! Aquele primo com nervos fracos e sorriso de criança nos seus quarenta e tantos anos... Lembrar a infância, quando brincávamos juntos, felizes, sem imaginar as agruras da vida, os sofrimentos futuros... Doeu! Deixá-los ali, entregues ao silêncio e a solidão que os acompanhará, talvez por anos infindos... Doeu! A jornada continuou. Visitamos outro tio . Mais magro... Mais parecido com a vovó.
A antiga paisagem da “casa da vovó” já não existe. O olhar ao longe já quase não identifica nada daqueles velhos tempos. Somente o ar nostálgico, o silêncio da tarde quebrado pelo grito dos quero-queros ou das saracuras, lembra as tardes da nossa infância.
Valeu! O dia, as visitas aos mortos e muito mais o encontro com os vivos. Ainda fomos á casa de outro primo , para visitarmos mais um tio doente, mas a casa completamente fechada mostrava que ali não havia ninguém.
Retornamos pelo mesmo caminho, ainda buscando as marcas do passado em cada curva, em cada roça ou pedaço de mato. Tudo, ou quase tudo mudou. Lentamente, as coisas vão se transformando. O chão se cobre de novas folhagens, a terra recebe outras casas, outras pessoas...
Também dentro de nós vão ocorrendo mudanças. Crescemos, superamos dores antigas, adquirimos algumas novas, mas as antigas feridas são ás vezes, somente recobertas de novas folhagens. Se as removermos, lá estão às cicatrizes que não conseguiram desaparecer completamente, algumas, ainda em carne viva. E só nós sabemos o quanto cada um de nós ainda se sente aquela pequena criança que olhava ao redor buscando segurança e amor nos que nos cercavam...
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