terça-feira, junho 12, 2007

12.06- SE...

Hoje meu pai faria 74 anos, se fosse vivo... Faz onze anos que morreu. Era muito cedo! Nós nos conhecemos muito pouco, demonstramos pouco amor um ao outro. Tivemos pouco tempo juntos. Apesar de que, lembro-me de alguns momentos que me marcaram profundamente. Um domingo, em que ele nos convidou para um passeio. Eu e a Inês aceitamos e fomos com ele assim mesmo como estávamos vestidas... Quando percebemos, estávamos em uma festa de igreja, em Bom Retiro. Foi uma tarde muito agradável e ao voltarmos para casa vínhamos cantando velhas canções caipiras. Na minha primeira visita à ele no hospital, depois que teve o primeiro derrame, senti-me muito inspirada a dar-lhe meu terço branco, de bolinhas de cristal. Estava envergonhada, mas acabei tendo coragem e rezei com ele o primeiro de muitos terços que ele rezaria naqueles seus últimos de vida. Nós nunca conseguimos ser pai e filha próximos, como acontece hoje em dia. Pelo contrário, ele não nos demonstrava amor e nós não sabíamos como buscar. ...Se ele fosse vivo hoje, será que seria diferente? A idade nos faz ver tudo de outra maneira: Perdemos a vergonha de muitas coisas, passamos a ter vergonha de outras que achávamos naturais, passamos a entender atitudes de outros, que antes nos pareciam totalmente erradas...Cobramos menos, nos tornamos mais compreensivos. ...Se meu pai ainda estivesse aqui, por certo ainda me irritaria com muitas atitudes dele, mas adoraria ouvir de novo a sua voz, sua risada. Ouvi-lo contando histórias de grandes personagens, de homens famosos, de grandes descobridores. Era, apesar de só ter o segundo ou terceiro ano primário, um homem de grandes conhecimentos, de muitas leituras. ...Se meu pai ainda estivesse aqui, certamente eu cobraria dele coisas que fez no passado, erros que cometeu , carinho que não me deu. Mas também, certamente, iria pedir seus conselhos em muitos momentos, cantar com ele enquanto tocasse seu violão, cavaquinho, pandeiro ou acordeom... Mas, como ele mesmo me disse uma vez, “SE” não existe. O que aconteceu, aconteceu e nada poderá mudar isto. Só cabe a nós aceitar, recordar e seguir em frente. Mesmo assim não posso deixar de dizer:

PAI
Porque esta dor que não quer sarar?
Quando lembro de ti, a ferida começa a sangrar.
Que amor é esse
Doente, carente?
Que amor é esse que nunca vivi?
Porque tua imagem é tão forte?
Parece mesmo que estás aqui.
Porque sofro tanto ao te lembrar?
Que dor é essa
Que nem o tempo
Nem a morte
Consegue aplacar?
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